Por Margarita Pisano

 

[*]Mulherismo’  foi um neologismo que a autora criou para opôr ao termo ‘feminismo’, sendo que aquela seria uma posição onde basta algo ser feito por mulher para ser bom. Nessa idéia, ter mulheres policiais ou mulheres capitalistas que exploram outras mulheres, seria uma ‘conquista feminina’. E ela critica que não basta esse tal ‘empoderamento’ sem mudar toda cultura de domínio. Portanto, não deve ser confundido com o mulherismo afrocentrado, que acredito que a autora devesse desconhecer. O ‘Mulherismo’ seria a tendência a achar que tudo que é de mulher é bom, que se é uma mulher é bom, que se há uma mulher no poder é bom, que se uma obra é produzida por uma mulher é bom, e para a autora não importa isso uma vez que podem estar representando nada mais que o velho Patriarcado e obtura uma visão crítica dessa ‘igualdade’ e assimilação ao patriarcado/sistema. Por isso mesmo acabei mantendo depois, ao longo do texto, o original ‘mujerismo’, de modo a diferenciar desse outro conceito mais conhecido no Brasil e popularizado pelo movimento negro.

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“Nossa responsabilidade não é juntar votos para a masculinidade em constante crise.
A dupla militância mental, tributária da cultura estabelecida.

Se buscam as debilidades do sistema, em vez de nossas potencialidades, para constituir um “pólo de referência civilizatório”.
Margarita Pisano (Movimento Rebelde do Afuera 1 )

O patriarcado busca às mulheres e à maternidade como recursos de reposição de valores quando seu sistema civilizatório vislumbra uma crise. Então, o mulherismo retorna à moda como reserva moral e ética: o madrerismo (maternagem); e não devemos confundir a isso como sendo avanços civilizatórios. O dia que já não lhes sirvamos mais como “boas mães”, nos voltarão a queimar simbolicamente na praça pública. São históricas as tentativas de nos declararem “tontas”, “putas” e “mães más”. Negar isso é voltar ao mesmo. Nossa responsabilidade não é juntar votos para essa masculinidade em constante crise. 2

O mujerismo imperante, tanto de direitas como de esquerdas, não representa um projeto de mudança civilizatória 3. Devemos desenvolver nosso olhar atento e conhecedor do sistema para evitar o maltrato moderno-medieval com o qual se castiga às mulheres pensantes, autônomas e independentes, e evitar a socialização acadêmica que neutraliza capacidade política, filosófica e transformadora dos conhecimentos das mulheres. Os assassinatos não são apenas físicos – contra os quais reagimos duramente – também são simbólicos: nos assassinam como seres humanas pensantes, matando nossa história e a possibilidade de outras civilizações não-misóginas; perpetuando, assim, o assassinato físico de mulheres.

A masculinidade impõe o modelo feminino-feminil-feminista dentro de sua cultura, conformando um todo. Coitada da que sai dessa feminilidade simbólica que nos mantêm capturadas, em busca das legitimidades que concedem a masculinidade e suas instituições, pois será sancionada, desqualificada e classificada como patriarcal e agressiva, BASTA QUE ESTEJAMOS EXPRESSADA COM PAIXÃO para isso acontecer. O feminil é o apolítico e neutro, é o permitido. As mulheres somos pessoas e, como tais, não nos deixam viver o espírito crítico nem a paixão política, salvo aquela criada pelos homens. O modelo dominante acaba por devorar a imaginação das mulheres e sua história de “moças insolentes”.

Não estamos avançando à uma civilização “outra”, que nos contenha horizontalmente a todas e todos. Os projetos políticos se sustentam nos valores religioso-familistas e constroem poderes mágicos, imóveis e de domínio, incapazes de modificar-se a si mesmos em profundidade, porque morreriam. As religiões se re-pintam com vários livros sagrados para poder sustentar suas hegemonias essencialistas e as diferentes ideologias políticas. Neste contexto, é impossível mudar o mundo. Somente um novo projeto civilizatório vai poder ir dissolvendo os desejos de domínio inscritos em todas as pessoas, à imagem e semelhança dos todo-poderosos.

A “cultura” feminista deveria poder convocar com projetos civilizatórios próprios, livres de misoginia, e não continuar com as mesmas demandas de 30 ou 1000 anos atrás, por mais remendadas que estejam, isso não é mais que um espelhismo masculinista. A negação da história com nomes e sobrenomes de mulheres, nossa história, é um retrocesso com responsabilidades concretas (não é um problema de amores), somos por excelência as anônimas, reconhecemos alguns nomes somente através do heroicismo patriarcal, invalidando nossa própria existência. Sem História e um lugar político específico, os avanços para as mulheres estão suspendidos no tempo e espaço. Isto confirma minha suspeita dos sucessivos fracassos dos movimentos sociais, que conseguiram somente superficialmente afetar o sistema vigente. O grande fracasso é o apego à feminilidade-masculinidade, a esse nicho cômodo da NÃO liberdade.

Nos falta consistência e confiança em nossas capacidades criativas e acabamos ficando somente com as necessidades de sair à rua e sacar as velhas bandeiras reivindicativas. O feminismo ficou apegado ao maternalismo de duplas e triplas militâncias – umas mais fracassadas que outras – fatais para as mulheres, sobretudo, a dupla militância mental, a pior, a tributária da cultura estabelecida. A prioridade neste momento é pensar nosso movimento, desprendido (afuera) da cultura vigente, como um lugar político legítimo de discussão, de construção de nossos valores, de mudança de nossos desejos; começar a construir nossa própria história, que de tão oculta e manipulada que está, a teremos que inventar agora.

O equívoco político dos setores maioritários de feministas é a estratégia dos resquícios (o lobby e suas entremesses): a busca das debilidades do sistema, não de nossa imaginação e potencialidades para constituir um “pólo de referência civilizatório”. As femininas sempre estivemos nessa parte obscura do poder, na fissura da alma dos homens e suas instituições. A imagem do resquício, sombrio e úmido, é por onde serpeiam as baratas. Aqui é onde certos setores feministas-masculinistas propõem e fazem sua política “ao modo” parejil (de casal, amor romântico) e familista. Isto transforma o esqueleto em cartilagem, porque precisam então agachar-se, arrastar-se e trepar por estes resquícios de poder, nunca expostas, não-expressadas, sem deixar rastros.

O lugar obscuro, ou melhor, a vitrine da venda, o engessado e os eternos saltos aos que nos voltam a subir e desvestir. Essa estratégia das fissuras não é privativa do corpo das mulheres: a masculinidade inventou a feminilidade. Os homens se enfiaram nos resquícios do poder para negociar com outros homens, mas eles saem e se colocam a dirigir o mundo, como heróis luminosos, como deuses, com nome e sobrenome, perpetuando a história oficial.

Há exemplos claríssimos do apagamento da história: desaparecimentos, desaparições e desaparecidas (coisa comum no patriarcado). Onde ficaram as rebeldes tomadas de consciência das mulheres da Idade Média? Onde ficou o Encontro Feminista Latinoamericano e do Caribe de Cartagena-Chile (1996)? Desapareceu no Golfo de Penas? Esse encontro propôs que cada mulher tomasse a decisão de estar e escolher, transparentemente, desde onde queria fazer sua política, nascida desta história em construção e não de outras militâncias com suas próprias histórias instaladas e já legitimadas, que embora tenham desejos de mudança, não mudam os desejos.

É esta a construção simbólica feminina-feminil-fémina-femme… feminista. Nesta sopa espessa se bate o mujerismo-madrerismo (mulherismo-maternagem) patriarcal; sem paixão pelas idéias próprias – sim pelas dos homens, suas criações e instituições – e sem consciência de todo este “natural” servilhismo, voltaremos a estar na moda, denovo e denovo, nos ires e vindas das crises patriarcais.

Notas

1 Afuera : O Fora, o de Fora, nome do grupo político de Margarita Pisano que foi pioneiro da bandeira do feminismo autonomo , surgido em reação à institucionalização do feminismo. O conceito de Afuera é constante na obra de Pisano, significando algo que está por fora de tudo, por fora da civilização, Margarita vê o estar fora como um lugar potente, é diferente de ser margem, é não pertencer, essa idéia vem também da valorização positiva que fizeram as chilenas do feminismo da diferença, que transformaram em feminismo radical da diferença ao uní-lo a teóricas do radfem. As mulheres estando fora do patriarcado, excluídas da história, também possuem um lugar vantajoso por estar fora disso tudo, um lugar inaugural e privilegiado para antever o ‘cambio civilizatório’, a mudança civilizatória, o abandono dessa ‘civilização’ que Margarita considera ‘fracassada’ enquanto projeto ético, existencial, comunitário, social, político e de vida.

2 Acredito que o que a autora se refere como ‘juntar votos’ é justamente as eleições, e aponta o ‘mulherismo’ como sendo essa tendência de usar mulheres em cargos públicos, coisa do feminismo da igualdade, o que ela considera que não representa qualquer mudança. Daí ela faz um jogo com a idéia de ‘juntar votos’ ao criticar as feministas que apelam à outras que votem em uma mulher. A presidente do chile recente foi um dos governos mais repressores às protestas e mais conservadores. O que ela chama de ‘constante masculinidade em crise’ nada mais é que o sistema, e a feminilidade vê como outro produto da masculinidade. Logo, a constante masculinidade em crise é o sistema que tenta se reformar e remendar, uma hora parecendo mais democrático, mas para ela nada mais é do que a própria crise eterna de um sistema fracassado.

3 Em Pisano o conceito de civilizatório casaria com as teorias de fim da civilização (esta é uma reflexão da tradutora, as feministas autonomas dessa corrente detestam o anarquismo por ser masculino além de terem uma crítica com a violência como sendo algo da Masculinidade e da civilização, acreditam numa mudança mais profunda que a provocada por explosões ou revoluções sangrentas). Porém a autora fala em cambio civilizatório porque ela aposta muito no potencial humano criador, criativo, pensante, ela acredita que o humano tem justamente as ferramentas para refazer o design (diseño, a autora era arquiteta) da sua existência e moldar a vida ao invés de seguir religiões e idéias essencialistas. Por isso vê como civilizatório, porque nos vê como capazes de criar cultura, de criar nossos modos de existência, e a autora não é crente em nenhuma filosofia do tipo deusas ou primitivismo. Essa noção está muito atrelada à forte idéia da autora na responsabilidade humana sobre sua própria existência.