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Um robô configurado para estupro torna o mundo mais violento para as mulheres, não menos

Por Sian Norris no NewStateman
Tradução Fernanda Aguiar

 

 

Erotizar a falta de consentimento, não é uma resposta para diminuir a violência masculina contra mulheres

Na quarta-feira, o Independente, informou que uma nova configuração foi adicionada ao alcance da personalidade de um robô sexual para uma empresa True Companion. Chamado “Frigid Farrah”, uma configuração que permite que o robô simulem estupro. Se você o toca em uma “área privada” quando estiver neste modo, o site explica , “não apreciará o seu avanço”.

True Companion diz que o robô não está programado para participar de um cenário de estupro, a idéia é “pura conjectura”. No entanto, uma notícia reabriu o debate sobre robôs sexuais e sua relação com o consentimento. O que um robô violador diz sobre Atitudes em relação ao consentimento, sexo, violência e humanismo? Os robots sexuais como Frigid Farrah erotizam e normalizam a violência masculina sexual? Ou permite aos homens “atuarem” estes “sonhos sexuais mais privados” em objetos inanimados realmente tornam como mulheres reais mais seguras?

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Abandonando o feminismo liberal

Por Kate Leigh
Tradução livre por Naiara Cerqueira

Honestamente, eu não conseguiria te dizer quando eu comecei a seguir a filosofia do feminismo interseccional liberal. Foi simplesmente parte do meu processo de pensamento e, por extensão, da minha vida online e offline. Eu seguia todas as páginas e blogs. Eu contribuía com compartilhamentos e comentários. Eu dizia às pessoas para reconhecer seus privilégios e que homens precisavam do feminismo também. O feminismo liberal era o único feminismo que eu conhecia. Na verdade, eu nunca me declarava feminista liberal, me declarava ‘feminista’, sem perceber que existiam outras vertentes.

Relembrando o que eu pensava quando eu tinha essas crenças, me esforço para descrever minha experiência do ponto de vista do feminismo liberal, na próxima seção. Na seção final, eu explico porque mudei de ideia.

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Canibalismo Feminista

Por Teici Miranda

 

Se você tem algum contato com o feminismo atualmente poderá responder: Quantas mulheres se afastaram do feminismo nos últimos tempos? Quantas decidiram desaparecer politicamente? Quantas mulheres foram expostas de modo imaturo e por isso sumiram? Ou quantas escondem suas opiniões por medo de tal exposição? Quantas preferem se preservar psicologicamente? Quantas mulheres vocês conhecem que são silenciadas por medo de exposição? Uma… duas… várias… Por onde anda aquela amiga que estava sempre aqui nos educando politicamente? A prática da exposição está cada vez mais comum, e não adianta argumentar sobre os motivos que tal prática pode ser devastadora, porque sempre aparecerão justificativas para o ato. Sempre há um lado justificado como correto para exposição, e até dois ou mais (Não é raro ver dois “clubinhos” disputando sobre qual deles está mais errado ao expor alguma mulher.)

Em 1969 Ti-Grace Atkinson, questionando sobre sua época e sobre quem era o inimigo do feminismo, perguntou “certamente o inimigo deve ter sido definido em algum momento. Caso contrário, em quê nós estivemos atirando nos últimos dois anos? No ar?”1. Pensando no mesmo, refiz esta pergunta nos últimos dias, e não sei por que me surpreendi com a resposta. Durante todo este ano em quem nós atiramos? Em quem, além de nós mesmas? Óbvio, que ao fazer tal crítica não pretendo cair na ideia de uma sororidade que inocenta qualquer mulher de um ato falho. O que acontece é a falta de diálogo, não há leitura da outra pessoa. Não pode haver discordância, pois se houver, não há mais conversa, e sem conversa há a exposição.

Por que não se pode conversar sobre as discordâncias? Por que é difícil discordar sem atacar a outra? Por que sempre que alguém discorda politicamente de outra, rapidamente essa discordância se transforma em algo pessoal? Por que cada vez mais há a divisão entre mil “clubinhos”, parecendo um grupo de colegiais (isso na prática da exposição)? E ainda, por que há a cobrança de mulheres politicamente perfeitas? “Mulheres maravilhas” que não podem cometer um erro sequer, seja no presente ou no passado, que já são condenadas ao ostracismo. Estamos em busca da feminista perfeita, que nunca erra? Ou quem sabe uma santa feminista?

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Feminismo pacifista ou passivista?

Por Dilar Dirik no Entranhas
Tradução Elisa Rosas

Amanhã é o Dia Internacional da Mulher. Frente ao aumento do feminicídio, da violência sexual e da cultura do estupro, precisamos nos confrontar com a questão da autodefesa das mulheres.

Quando algumas mulheres brancas comemoram a não-violência da marcha das mulheres contra o Trump e posam para fotografias com policiais, enquanto a violência policial mira especificamente pessoas negras, quando pessoas que socam nazistas são acusadas de não serem diferentes dos fascistas, quando feministas em relativa segurança acusam de militaristas as militantes do Oriente Médio que confrontam a escravidão sexual do ISIS, precisamos problematizar a noção liberal de não-violência, que ignora sistemas de poder e mecanismos de violência estrutural. Ao se apegar dogmaticamente a um pacifismo (ou passivis-mo?) ligado à classe e à raça, e demonizar a raiva e violência antissistema, as feministas se excluem de um debate muito necessário sobre formas alternativas de autodefesa, cujo objetivo e estética serve à política liberacionista. Em uma era global de feminicídio, violência sexual e cultura do estupro, quem pode se dar ao luxo de não pensar na autodefesa das mulheres?O feminismo cumpriu um papel importante nos movimentos antiguerra e conquistou vitórias políticas na construção da paz. A crítica feminista ao militarismo como instrumento patriarcal torna compreensível a recusa em considerar “empoderadora” a participação feminina em exércitos de Estados. Mas a rejeição geral das feministas liberais à violência das mulheres, independentemente do objetivo, deixa de distinguir qualitativamente entre o militarismo intervencionista, estatista, imperialista e colonialista, e autodefesa legítima e necessária.

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O ódio às mulheres está novamente a aumentar

Por Roswitha Scholz
Tradução Boaventura Antunes

O feminismo ainda deverá ser salvo? Ou os seus jogos de linguagem pop-cultural são um luxo que só serve a quem já não espera ganhar mais nada? konkret falou com a teórica feminista Roswitha Scholz sobre as teorias queer e de gênero, e sobre a necessidade de um feminismo materialista.

konkret: Onde está o feminismo em 2017?

Roswitha Scholz: O feminismo, no fundo, apenas em meados da década de 2000 voltou a levantar a cabeça. Os anos noventa foram marcados por teorias queer e de gênero. As abordagens materialistas eram malvistas. Mas, se no passado recente houve mais abordagens de orientação materialista, o feminismo continua a não se atrever a questionar o que significa realmente a relação de gênero numa dimensão teórica maior.

 

Porque é que a discussão da relação de gênero é tão crucial?

Trata-se da crítica das relações patriarcais capitalistas. Se se fala apenas de capitalismo, isso é quando muito meia verdade. São destacados determinados aspectos, são explicadas as relações econômicas, mas é ignorado um elemento constitutivo: a dissociação das atividades reprodutivas. E esconde-se a importância da dissociação sexualmente especificada para a forma de sujeito.

Durante muito tempo, a relação de gênero foi tratada como contradição secundária. Mas não se pode simplesmente deixar de fora as atividades de metade da humanidade. Não basta esta situação ser integrada na crítica do capitalismo, pelo contrário, à dissociação mediada pela categoria gênero tem de ser dada uma nova qualidade na própria teoria, como princípio estrutural essencial do patriarcado produtor de mercadorias.

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O tabu da abrstração no feminismo: Como se esquece o universal do patriarcado produtor de mercadorias

Por Roswitha Scholz

“A dignidade dela está em ser ignorada”
Jean-Jacques Rousseau

Introdução

Nos anos noventa a teoria feminista, agora transformada em teoria do gênero, sofreu uma mudança de paradigma: deixou de se denunciar a neutralidade sexual dos projectos teóricos e passou a focar-se a construção ou desconstrução da masculinidade e da feminilidade, abstraindo do facto de o homem ser simplesmente estabelecido como o universal nas concepções androcêntricas (que continuam a constituir o mainstream). A crítica feminista anterior tornou-se ela própria suspeita de reproduzir novamente a relação assimétrica de gênero justamente através da sua nomeação.

Até bem dentro dos anos oitenta, ainda procurámos afirmar-nos contrariando a tese de esquerda da contradição secundária (se bem que muitas vezes de modo problemático, a meu ver). As pesquisas queer e de género experimentaram então uma ascensão meteórica. Simultaneamente deu-se uma mudança de rumo para análises sociologicamente descritivas, cujas representantes projectam a imagem de seriedade particularmente científica com a descrição precisa de contradições, diferenças, ambivalências e desigualdades. Desde então qualquer esforço de conceito é acusado de inadmissível agravamento do “essencialismo” de modo no fundo mais ou menos inconsciente. Torna-se assim impossível a teorização e o questionamento necessariamente RADICAIS da relação hierárquica de género, que continua a dominar à escala mundial, mesmo na decadência do patriarcado produtor de mercadorias.

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Preferência versus Orientação

Por Heather L Moore
Tradução S. Marinho

“As palavras e frases novas são uma medida orgânica de mudança. Capturam as transformações da percepção e muitas vezes da própria realidade”Esta frase foi escrita por Gloria Steinheim em 1982, num ensaio entitulado “Palavras e Mudança”. No seu ensaio, ela explica os modos como as feministas mudaram o nosso mundo através da linguagem, e a importância que a linguagem continua a ter na redefinição daquilo que somos como mulheres e no modo como somos compreendidas e tratadas. Uma frase que atualmente é comum nos meios de comunicação e entre os grupos de direitos das Lésbicas e Gays é orientação sexual. É usada em leis gerais e municipais feitas para acabar com a discriminação, e em ensaios de estudiosos que examinam diversos aspectos da homossexualidade. Em toda a nossa sociedade, “orientação sexual” foi codificado como o termo a usar quando se discutem questões envolvendo homossexuais. Ocasionalmente, ouvimos usar o termo preferência sexual em debates retóricos sobre questões das Lésbicas e Gays – mas isso é frequentemente um sinal que o orador é ostensivamente anti-homossexual. Então que diferença faz qual a frase que se usa? A terminologia serve o seu propósito se sabemos, apenas através da terminologia escolhida, quem apoia ou não os direitos das Lésbicas e Gays. Não é? Mas a linguagem não ajuda apenas a etiquetar a realidade – também ajuda a criá-la. Citando novamente Steinheim “Nesta onda (a segunda onda do feminismo] as palavras e a consciencialização lideraram o processo de modo a que a realidade se lhes seguisse”. As palavras que usamos para descrever questões feministas tem uma enorme importância. Precisamos dizer aquilo que pretendemos, não o que é mais conveniente ou simples. Como feministas, o nosso uso da linguagem tem sido, e continua a ser, uma das nossas armas mais poderosas na luta para atingir a igualdade.

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Daqui não sai: reflexões sobre a fofoca

Por Andrea Franulic e Insu Jeka
Tradução Hembrista

“Eu te suplico
faça algo,
aprenda um passo,
uma dança,
algo que a justifique,
que lhe dê o direito de estar vestida de sua pele, seu cabelo.
Aprenda a caminhar e rir (…)
afinal
que tantas estejam mortas
e que você esteja viva 
sem que você faça nada de sua vida”
(Charlotte Delbo, 1970).

Viemos querendo escrever sobre o Rumor. Claro que não somos as primeiras a fazê-lo. As disciplinas patriarcais vieram realizando teorizações sobre o tema (a psicologia experimental, a psicologia social, a psicanálise, a teoria da comunicação e a sociologia). Não vamos nos basear nelas. Nosso interesse se encontra nos textos que pudemos encontrar na teoria feminista, devido a que as mulheres somos e viemos sendo o principal objeto do rumor no contexto de uma cultura misógina. Isso explica que, inclusive em espaços feministas, o rumor aparece como uma prática recorrente para desacreditar as mulheres pensantes e que se destacam por um trabalho consistente.

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Por Aline Rodrigues no Ação Antisexista

Alguns homens se beneficiam ao usarem do feminismo para conseguirem imunidade. São homens que não diferente de outros abusam de mulheres, porém descobriram que “apoiando” o feminismo eles nunca serão descobertos nem cobrados. São homens que lançam textos sobre feminismo ou discursam feminismo mas nunca tiveram nem de perto a tentativa de se retratarem com as mulheres que eles abusaram. Isso nos mostra que ele não está interessado em praticar o discurso, nem apoiar as mulheres, mas se livrar da culpa. O que só mostra seu grau de manipulação, só confirma o quanto foi abusivo. Só comprova que ele continua sendo abusivo ao seguir passando por cima dos sentimentos e da realidade das mulheres que ele abusou, sem nenhum escrúpulo. Ora, se esse homem se dá ao trabalho de ler textos sobre abuso e distribuí-los ou discursar sobre feminismo, significa que ele tem acesso para entender a questão. Mas muito pelo contrário, ao invés de procurar entender o que é de fato abuso, ele escolhe continuar sendo um homem manipulativo, logo, abusivo. Ele continua desta forma que escolheu – de fingir que nada aconteceu e ainda adentrar no feminismo como cooperador – a causar danos no psicológico da mulher que ele abusou, pois além de ter sido abusada, ela agora tem que lidar com o total apagamento dos abusos que sofreu, e ainda vê-lo procurando ser reconhecido como apoiador da luta das mulheres. Mais uma vez o patriarcado exige apenas dela que resolva sozinha os seus traumas. Mais uma vez ela tem que achar forças para enfrentar uma nova batalha.

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